29 de julho de 2013

Transparência

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele
Por sua origem, ou sua religião
Para odiar as pessoas precisam aprender
E se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar"
Nelson Mandela
Recebi a sugestão de divulgar um livro sobre racismo por conta do encantamento de quem me indicou, de um relato de discriminação e da constatação de poucos personagens negros pop´s na literatura infantil.
Inspirada e fazendo de ponte o papa pop, sua passagem pelo Brasil,  suas práticas e crença no poder e valor da simplicidade, seus discursos e a metáfora de sairmos de trás do balcão, de puxar fila e não seguir, resolvi falar de transparência.
Há muitos estudos, trabalhos, discursos, foco em não haverem personagens infantis negros, mas o patinho feio é uma história clássica e famosa, onde a feiura não é uma característica do personagem, mas sim a diferença. Seus traços, trejeitos, o seu cabelo loiro o fazem ser tachado de diferente pelos que não são iguais a ele.  No patinho feio podemos considerar que estão os negros e tantos outros grupos e indivíduos.
E que tal focar na imagem universal e poderosa de uma personagem brasileira e universal, saída das águas como a alva Iemanjá ou Iara para as crianças, tão forte e tão poderosa quanto a mulher maravilha, a Nossa Senhora Aparecida, negra, com identidade cultural, santa e acima de preconceitos.
Sei que há mais personagens clássicos infantis brancos que negros e isso é parte da história, retrato de como tudo aconteceu e por conta disso há outras características, faltas, caricaturas nas obras que não contemplam a evolução atual e são as obras novas as responsáveis por evoluídas, virarem a página.
Acho que personagens negros precisam ser apresentados e vistos sem caracterização folclórica, sem apontamento para a cor da pele ou cabelo, como outros quaisquer. Releituras são interessantes, contudo, só de Brancas de neve negras conheço 3 títulos, dentre eles Branquinha de neve e Pretinha de carvão foi o que achei mais interessante, por criar uma nova personagem, com personalidade, referências e características próprias. É mais agregador ao meu ver, personagens com identidades pessoais, desvinculadas de esteriótipos, para as crianças negras se verem nas páginas do livro, seja nas palavras, seja nas imagens e crianças brancas verem crianças negras sem serem lembradas que são diferentes, com naturalidade.
Na minha opinião, um livro de racismo fala de racismo e é muito mais didático e agregador falar da cultura africana, de personalidades negras, heróis, lendas, valores morais e paralelo a leitura associar a teoria a prática. É preciso ainda músicas, danças, brinquedos de todo tipo, bonecas, bonecos, personagens de jogos de tabuleiro, ilustrações de todos as cores e também objetos como esculturas, quadros.
Em casos pontuais de algum incidente ou recorrência de episódios preconceituosos, seja a negros, autistas, baixinhos, gordinhas, em casa ou na escola, sendo estes espaços recheados como devem ser de imagens, palavras, objetos que fazem a cor de pele negra ser tão comum como a branca, vale usar um livro sobre racismo, bem como trabalhar o tema entre os educadores e com as famílias.
Penso como o grande Mandela bem descreveu, que uma criança não cria essas más impressões sozinha, ela vê coisas, ouve opiniões, comentários ácidos que a levam a formatar preconceitos, seja contra cor, peso, altura, hábitos. E essa erva daninha semeada vai da infância para a vida.
Quem teve na infância, deu para seus filhos, deu de presente, recomendou livros com personagens infantis negros? A hora é agora!
Não tem? Tem poucos? Não! Tem muitos e maravilhosos e devem ter mais, com mais divulgação e aquisição. Não acho porém que devam ser obrigados livros assim nas escolas, ter cotas de livros disso e daquilo, acho que esse é um movimento natural, é prática individual, ou de iniciativa das instituições de ensino e incentivo a leitura, que se enraíza e dissemina.
Segue lista de livros para serem comprados, indicados, popularizados e fica a sugestão para outros serem escritos, para que se produzam materiais (curtas, longas, peças, quadros, desenhos animados...) sobre os personagens das obras indicadas, para que a roda gire pra frente, pois é certo que águas passadas não movem moinhos.
A menina transparente de Elisa Lucinda

Pretinha de Neve de Rubem Filho
Na África tem neve?
Porque será que as personagens de contos de fadas não possuem nome próprio?

O pássaro da chuva de Monique Bermond
Antiga história que se passa em uma aldeia africana. Banium resolve apanhar e prender um pássaro da chuva, pois deseja ajudar sua comunidade. Com isso recebe uma valiosa lição e orientação dos mais velhos do seu vilarejo

Betina de Nilma Lino Gomes

O comedor de nuvens de Heloisa Pires

Kofi e o menino de fogo de Nei Lopes

O chamado de Sosu de Meshack Asare

O que tem na panela, Jamela? de Niki Daly

Princesa Arabela: mimada que só ela de Milo Freeman

A árvore do Beto de Ruth Rocha

O cabelo de Lelê de Valéria Belém

Obax de André Neves

A cor da ternura de Geni Guimarães

Nzua e o arco-iris de Julio e Débora D'zambê

As tranças de Bintou de Sylvanie Diouf

Tanto, tanto  de Trish Cooke

Que mundo maravilhoso de Joe Cepeda Julius Lester
Um Deus negro é apresentado pelo autor  
Que reconta a seu modo a criação do mundo, com humor e poesia

A menina que bordava bilhetes de Lenice Gomes

Quando eu digo, digo de Lenice Gomes

Ana e Ana de Célia Cristina

Valentina de Márcio Vassallo

Tequinho: o menino do samba de Neusa Rodrigues e Alex Oliveira

O beijo da palavrinha de Mia Couto

Contos da Lua de Sunny

E para fechar: Meus Contos Africanos de Nelson Mandela

"As imagens que moram em nossas mentes desde a infância influenciam nossos pensamentos durante a vida e podem contribuir (se não forem estereotipadas, inferiorizadas) para a autoestima e aceitabilidade das diferenças visando uma vida adulta feliz. Para isso essas imagens precisam mostrar nossa “cara”, força e cultura de todos" (Sousa, 2002, p. 196).
Salve a miscigenação! Salve a paz entre os povos, raças, religiões! Salve o Papa Francisco! Nossa Senhora Aparecida! Zumbi dos palmares! Salve Mandela! Salve o Saci e o Negrinho do pastoreio! Salve as diferenças que completam, peças de quebra-cabeça que desiguais se encaixam. Ovelhas brancas e negras em um só rebando e vamos em frente, para o alto, infinito e além.

15 comentários:

  1. Bom dia Tina Flor...perfeito seu texto e acho a mesma coisa coisa...no lugar de sempre sobre racismo, porque não falar dos atos, fatos e histórias que fazem a cultura africana ser tão interessante e que contagia, tipo a roda de capoeira e suas músicas.
    Eu vou acrescentar um livro: Menina Bonita do Laço de Fita - Qual seu segredo pra ser tão pretinha? - Ruth Rocha.
    É um livrinho que as crianças aqui de casa amam!!!
    Beijos Tina, alegrias nesta semana!!!
    Nutellas!
    CamomilaRosa

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  2. Parabéns Tina...
    Acho que é bem por aí que podemos fazer parte do movimento de mudança. Usando o nosso espaço, mostrando com palavras (que são a nossa arma) e indicando caminhos, dando idéias, exemplos, mostrando a verdade de maneira clara e natural.
    Gostei demais e assino embaixo.
    Bjs
    Vania

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  3. parabéns pelo post tão bem escrito, colocando pensamentos que devem ser espalhados e divulgados. Belo trabalho, linda divulgação! beijos,chica

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  4. Belo post, belas ideias e obrigado por compartilhar esta lista. Vou acrescentar o livro da minha infância "A Bonequinha preta". Foi escrito há mais de 70 anos e toda uma geração o que conheceu.

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  5. Parabéns adorei a forma que foi escrito o post .. beijos

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  6. É exatamente assim que trato do tema 'cotas'. Embora no texto que escrevi ano passado eu tenha utilizado termos mais específicos da área da educação, é esse o ponto principal. Por que essas diferenciações? Por que temos que dar certos direitos a uns, condizendo com a condição de que eles NECESSITAM de uma vantagem? Por que não podemos ser apenas UM povo?
    Nós temos que dar naturalidade às diferenças. E não simplesmente fazer uma inserção.

    Excelente postagem, excelentes indicações. Copiei e salvei no pen drive. Será de grandíssima utilidade.

    Boa semana, Tina!

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  7. Excelente texto com verdades insofismáveis. Parabéns.

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  8. Tina querida, voltei a blogosfera, depois de todo o processo de adaptação, de recuperação e de estreia da nossa nov família. Obrigada por toda energia positiva que me enviastes e me iluminou para um parto abençoado.

    Suas palavras são dignas de serem espalhadas... escreve lindamente! As palavras, o conhecimento são nosso tesouro precioso.

    Beijo grande.
    Lorena Viana

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  9. Tina,amei seu texto e super bem escrito!Minha filha é afro descendente e mesmo depois do fim do meu casamento,sempre procurei trazer a ela suas origens através de histórias infantis como essas que citou.Minha preocupação sempre foi que ela sentisse orgulho de ser negra tb.Já partilhei no Face seu belo texto!Bjs e boa semana pra vc,

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  10. Nélia Paixão29/07/2013 17:44

    Muito bom este post.Tinha que ser da minha sobrinha! É por isso que você é tão linda.
    Aproveito o momento para lembrar que o ser humano surgiu na Africa, segundo cientistas, de forma que todos nós temos origem NEGRA. Então, vamos louvar o "somos todos irmãos" e aproveitar para entender o nosso MARAVILHOSO mundo moderno, onde existem inúmeros movimentos pró igualdade entre os homens, onde existe uma Declaração dos direitos humanos,onde existem leis contra a discriminação. E se todos somos iguais, precisamos exercer o direito de sermos todos iguais. Em tempo: Acrescento à lista de livros "o Menino Marron" do Ziraldo.Bjs.

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  11. Tina, não sei se vc sabe, eu sou baiano, sofri em são paulo preconceito por ser negro e nordestino, mas, graças a Deus, minha família é um caldeirão de etnias, negros, índios e brancos, então, eu nunca me senti diferente. Eu sempre pergunto pq a nossa televisão, tanto na teledramaturgia como na publicidade, os negros são deixados de fora da mídia. Se um europeu fosse conhecer o Brasil pela sua televisão, ia achar q aqui só há brancos. É isso. Bjos.

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  12. Gostei demais daquelas dicas de livros! A critica foi muito boa viu, lembro da maluquice com. S personagens de Monteiro Lobado o acusando de racismo e foi tão sem fundamento ... Revoltante!

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  13. Caminhar para que todas as cores, etnias, enfim, sejam transparentes. Caminhar para não termos que lembrar que é preciso um livro sobre racismo para mostrar a todos a diferença.
    Que seja natural. Que a literatura cresça misturando, convivendo.
    Sua dica de presentear com títulos de diversidade sem alardes é fantástica.
    Link salvo!
    Salve a transparência! bj

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  14. Que todos sigam este exemplo, beijo Lisette,

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  15. Como as teclas do piano, não é amiga.....juntas compõem a melodia....abraço grande.....amo passar por aqui.

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