17 de novembro de 2014

Conto de uma margem e um marcador

Contam-se muitas histórias com muitas palavras, frases, linhas, pontos e contrapontos. E esse conto é sobre uma parte de todo conto, história, crônica, poema ou qualquer outro estilo de escrita: as margens. Seja no papel ou nos equipamentos digitais elas estão presentes. Tem quem faça rabiscos nelas na escrita manual e devem elas se sentir nessas ocasiões, parentas bem próximas das entrelinhas, que são margeadas de palavras.
Certa vez uma margem larga e soberana da página de um livro que vivia na extremidade do miolo acompanhada de um marcador de páginas, começou a amarelar, não de medo, mas pelo avanço da idade. E o marcador que ali ficou tanto tempo, marcando aquela parte do livro onde o último leitor o repousou por gosto, para alguma recordação ou por ser onde parou a leitura, se pôs a refletir sobre a utilidade da vizinha.
Não houvesse as margens, as letras amarelar-se-iam de súbito e tão logo comprometeriam a leitura, a medida que os livros envelhecessem. Tão livres, puras, tão reveladoras dos miolos são as margens! Como molduras de retratos, divagou o marcador. 
A margem de um conto parece expressão de renegação, tanto quanto tantas outras expressões e palavras que subjugam o valor contido e além do que é visível ou formal. Como a areia está a margem do mar e nem por isso é menos importante, vista, querida, põe-se o poeta marcador, para sua amiga margem recitar. 
E na amarelidão, como no esbranquiçamento dos cabelos, como parceiros e admiradores um do outro, puseram-se os dois a namorar, torcendo não mais para alguém abrir o livro em asas e pôr o marcador a andar, mas para ali juntinhos na estante ficarem, margem e marcador, como amantes e um para o outro, importantes.
Dos meus escritos, para uma segunda poética, romântica, literária e uma semana de leituras, reflexões, bem quereres, paz e bem.

7 comentários:

  1. Adorei o romantismo e ele faz bem sempre ,ainda mais para iniciar uma semana! LINDO! bjs, tudo de bom,chica

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  2. oi Tina

    Nos livros eu uso marcador, mas em outros materiais eu tenho hábito de riscar o que considero importante rs...

    bjokas =)

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  3. Decepcionada. Não com teu belo texto que nos enche de romantismo, esperança, lembranças de flores esmaecidas entre páginas, marcadores, namoros...
    Decepcionada em saber que " As editoras costumam empreender um tratamento diferenciado, com papéis mais grossos e margens maiores, a seus principais lançamentos ( ... )" Folha 15/11/14.

    Então, eu precisava ler esse conto, um lenitivo contra esse mundo interesseiro.
    Margens enamoradas, amareladas, companheiras. Assim sempre será em meu olhar!
    Beijo.

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  4. Lindo teu versejar para esta semana que se inicia que marquemos em nós versos d epaz e de romantismo sempre.

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  5. Lindo! Lindo! Sempre fica um pouco de amor em tudo que se toca...
    Bjs

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  6. Ah, que fofos margem e marcador juntinhos, namorando! Amei! Será talvez também porque fiz marcadores para minhas filhas? Pode até ser, mas que contas um conto lindo isso lá é verdade, Tina!! Becitos!

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  7. Uma linda criatividade e construção da inspiração.
    Aplausos neste lindo jogo da poesia.
    Abraços

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