23 de março de 2015

Dos lugares que me encantam

Vários são os lugares que me encantam, dos que fui, ando, nunca pisei, porque sou de encantamentos bobos. Tipo vejo arco-íris a nada menos que 39 anos vai fazer agora em abril (Oh Lord!) e sempre que vejo um me encanto.
Mas o lugar de hoje, que já veio para cá em uma das minhas idas a Sampa e na minha ida recente a Chapada, é a feira. Fui em fevereiro em umas das mais populares daqui de Salvador que passou por longa reforma e que tá todo mundo elogiando e adorando, mas eu não gostei. Vou explicar!
É que nem circo, acho o máximo o Circo de Soleil mas não é ciiirco para mim, é um teatro, um espetáculo tipo show. Circo com sensações e vivências circenses para mim são os do tipo mambembe, de família de malabares e palhaços, de lona que viajou muito, cheia de remendos e histórias. Então, fazendo esse paralelo, a tal feira virou shopping, tudo muito arrumado e padronizado, sem os cestos de vime, gritos de: É época de serigueeela freguesa! Com fila para pagar o estacionamento na saída, por um valor que dava antes para algo mais, restaurantes frozôs e não barracas com mesas plásticas. Uma feira sem identidade local, característica desses espaços para mim e penso que para turistas também.
Até quem andava por lá parecia ter sido escolhido, gente simples, com sacolas de feira daquelas listras de náilon, de lona ou de tecido, feitas de remendos das calças jeans dos meninos que crescem e a calça vira bermuda porque fica pescando ou das saias das meninas que crescem e as saias ainda cabem, mas diminuem não automaticamente, mas por gosto. Nada de moços com cara de pescadores que foram levar o peixe para banca de pescados, floristas de chinelo e camiseta suja de terra.
Enfim e continuando, vou ter que quando quiser além das coisas de feira (que agora vale pontuar parecem ter mais e estarem mais organizadas) ir na outra grande feira daqui para ver o movimento e os traços populares típicos de feira rua. Sem seções, padrões e normas como um mercado ou loja. Gosto de feira com papo, de poder mexer aqui e ali, de valores e quantidades negociáveis, com unidades e recipientes de medida que variam de lata de óleo a pá, bacia, saco, quilo, dúzia, penca, pacote.
Gosto da boa e velha prova sem lavar, que se não mata engorda, tem quem diga até tempera. Do chamar de mexerica o que outro chama de pocã, o outro de tangerina e todo mundo se entende ou não. Em feira que se preze, dentro de meus padrões, tem caqui machucado com preço convidativo e a teoria de que estômago não é prateleira, tem o caldo de cana que já vem com chorinho ou que você dá o último gole e o moço despeja o resto de dentro de uma jarra plástica que parece ter sido herdado da bisavó no seu copo com um sorriso que diz lembre disso e volte. Tem os cheiros e a sensação de que ali é lugar de comida de verdade, sem códigos de barras, de memórias afetivas de lanches, pratos, pessoas, com planos de fazer uma nova receita ou aquela velha que nunca mais fizemos e lá vamos nós atrás dos ingredientes sem marca, sem data de validade, uns que só tem naquela barraquinha.
Para mim cesta de vime e feira são coisas inseparáveis e para alguns hoje em dia ir a feira é uma realidade tão distante quanto ir a Marte, em tempos de supermercados gigantes e 24 horas, compras entregues em casa, soa tão antigo, arcaico.
Gosto porque gente abastada não ganha, perde se fizer pose em feiras de rua, carro não tem prioridade quando é dia de feira e se nos mercados tem padrões, portões e prateleiras, na feira popular tem jornal no chão, fruta direto do caixote, isopor remendado de fita crepe, improviso, criatividade. Tem um certo desconforto é fato, uma faltinha de higiene aqui e outra ali que assusta as pessoas a vácuo e ar condicionadas e é ai, além da poesia e do popular que a feira tem um que de educar, de humanizar, de senso de coletividade, cooperação e um detalhe muito importante que adoro, respeito e valor da individualidade. Se você é frequentador te chamam pelo seu nome e você chama o pessoal pelo nome, se não é alguém vai te perguntar seu nome, e sendo freguês te perguntam da gripe da semana passada, reparam se você pinta ou corta o cabelo, sabem até o que você gosta, reservam sem você nem ter pedido, sem ter seu zap para te perguntar se você quer ou vai lá. Em feira popular a gente não é o consumidor, não é genérico, não entra e sai sem ganhar um (geralmente vários) bom dia, volte sempre, vá com Deus. Simples, saudável e agregador.

7 comentários:

  1. Tina e que não se perca essa simplicidade. Infelizmente nas reformas, até dos Mercados ou Feiras, as coisas andam sofisticadas ... Aqui , uma simples padaria vira point de "bundinhas" e dá nojo.Claro que o pão fica beeeeeeem mais caro.Isso só um exemplo pois aqui tuuuuudo é assim.ARRE ,haja saco! Nada melhor que ser recebidos com um sorriso sincero, não dos que veem nos clientes apenas os cifrões... beijos, chica

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  2. As simplicidades são as coisas que mais encantam e que amarram nossos corações.

    bjokas =)

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  3. EU TAMBÉM ADOOORO UMA BOA FEIRA E COMO MOREI EM SÃO PAULO, GUARDO NO CORAÇÃO E NAS LEMBRANÇAS OS CHEIROS E TUDO O MAIS QUE VOCÊ FALOU. SÓ ESQUECEU DO "PASTEL" AH O PASTEL DAS FEIRAS DE SÃO PAULO!!! ACHO QUE SÓ TEM LÁ...
    BJS..

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    1. Pastel e caldo de cana, estão no post da Feira da Chapada.
      Adooro!
      Acho que tem pastel em todas as feiras populares Brasil a fora, será que não?

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  4. Tina, eu adoro ir à feira! Pena que ultimamente não tenho conseguido...
    Mas sempre que dá prefiro comprar os horti-frutis lá, é tanto colorido, aquela animação dos feirantes....experimentar as frutas para ver se estão doces...uma delícia!
    Sem falar no pastel e caldo de cana, sagrados!
    Bjs

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  5. Feira sem os gritos de frases clichês de feira, não é feira.
    Que triste essa padronização que faz perder características, proibições e incorporações de coisas que não deviam fazer parte.
    Fiquei com cheiro de mexerica na mão ( ou seria poncã ) ?!

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  6. As pessoas esqueceram que o belo está nas pequenas coisas.... Beijo Lisette.

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